quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

SOBRE OBSESSÃO,LITERATURA FEMININA E OUTROS MODOS DE ENCHER LINGUIÇA NO TEXTO

Um dia um amigo me disse que a melhor coisa do mundo é se tornar aquilo para o qual voce nasceu.
Hoje compreendo o que ele queria dizer...
Se tornar aquilo para o qual você nasceu não significa que voce vai estar feliz, rico, completo,correto.Na verdade é meio até que o contrário.Significa que voce vai estar pouco se lixando para o que voce deveria ser...porque estará demasiado ocupado sendo.
É complicado mesmo, mas desde que decidi me tornar escritora liguei o foda-se para as convenções sociais.
No começo era só o medo, a insegurança...
O que significa ser escritora? Tenho que lançar livros ou só escrevê-los? Terei perrengues financeiros e a família despedaçada,ruína total? Com sorte sai todo mundo fisicamente ileso,nada de crimes passionais. Burroughs não teve esta sorte,Euclides da Cunha também não.Não quero nem falar dos suicidas, Santo Hemingway que me perdoe.
Mas nada disso é pensado ou tem importância quando voce está decidido a ser aquilo que está escrito, se é que os deuses se atrevem a escrever narrativas sobre os homens.
Acordei numa manha ensolarada em julho de 2016 e antes do café decidi que não poderia mais me esconder.
Decidir-se pela arte é uma problemática de proporções catastróficas e ninguém aqui pretendia se arrepender dos novos empreendimentos.Por isso cada passo deveria ser friamente calculado.
Para se tornar escritora era preciso romper com algo maior do que pátria, família,propriedade.Era preciso mais do que se expor.Era preciso, antes de tudo, ter vocação para o ridículo.
Sendo assim eu estava tranquila porque sempre me senti medíocre e conformista.Agora eu seria uma ESCRITORA medíocre,conformista e ridícula e isso me soava muito bem...ou muito melhor, melhor dizendo.
Ser ridículo é melhor do que ser covarde...e convencida disso fui viver meu primeiro dia de escritora com o peito estufado de coragem e satisfação pessoal.
Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio...não são palavras minhas...são do Dostoievski,o véio tinha o que dizer...
A primeira coisa que fiz naquele domingo ensolarado foi procurar alguma bebida pela casa.No texto voce até pode dar a largada de cara,mas depois necessita de um aditivo para dar vazão aos seus mais íntimos pensamentos e prospecções, por mais de uma ou duas horas.
Não sei se acontece assim com todo mundo, provavelmente nao...Não imagino Charles Dickens ou mesmo Jane Austen se embebedando para escrever.Mas na lista dos escritores que eu admiro constam 10 talvez 12 malditos alcoolatras : Allan Poe, Bukowski, Dorothy Parker,Anne 
Sexton, Kerouac, só pra citar alguns...Ninguém aqui esta dizendo que se deve beber como eles...mas em doses moderadas o alcool ajuda no desenvolvimento dos temas,fato!
Depois que encontrei um resto de vodca na geladeira (e fiz uma doce caipirinha), sentei-me animada em frente ao computador...o que fazem os escritores afinal? Escrevem para o nada? Embebedam-se para ter o que contar? E o que contam? Para quê , para quem, Senhor? 
Esta era a primeira grande batalha que eu deveria vencer se quisesse realmente me tornar uma escritora que, ridícula ou nao, seria verdadeira.
A arte pode ser boa,a arte pode ser ruim, mas a arte nunca deve ser falsa. Essa era minha maior preocupação e nao tem nada a ver com caráter ou outras perspectivas moralistas que os "patrulhadores da vida dos outros" nos impõem.Ser verdadeira com os amigos e com os que nos rodeiam é importante, lógico.Mas minha preocupação utopica era ser verdadeira com o texto.Ser minimamente sincera...o leitor não está afim de ser enganado e descobrir o engodo antes do final da história ou do poema.Isso tampouco tem a ver com as possiveis dúvidas a cerca da veracidade dos fatos.Os fatos do texto não são os fatos da vida do autor,não necessariamente...
Toda esta confusão crescia dentro de mim e escrever era a única motivação realmente sincera que encontrava para a vida.Ser mãe era singelo e reconfortante mas não era o suficiente...eu precisava escrever.
Então histórias e mais histórias começavam a se entrelaçar na minha mente 24 horas por dia.Mesmo os sonhos eram agora alimento para o que eu , depois de tanto tempo e de tantas reflexões,decidira me tornar.
Nesse novelo miscelânio de propostas decidi me guiar pela intuição e, a primeira coisa que recebi, foi um sonho onde os animais conversavam comigo.
Recorrendo, assim que amanheceu, ao dicionario de sonhos, descobri que alguma coisa dentro de mim tentava se estabelecer, sair, pular pra fora a qualquer custo. Sonhar com animais falantes tem a ver com uma força interior que todos temos, mas que teima em se esconder envergonhada de tamanho terremoto que possa causar. Ou do ridículo. Eu já tinha perdido o medo do ridículo uns 4 parágrafos antes...
A segunda coisa que me inspirou a tomar uma das maiores decisões da minha vida foi um teste oracular que fiz no facebook que disse que eu estava me aproximando de mim mesma. Bingo! Bazinga! Yeahh! Era tudo que eu precisava ouvir do mestre Zuckerberg. Alguns outros pormenores existenciais contribuíram em meus últimos momentos de decisão...a solidão, a falta de grana, o niilismo,a revolta com um país cada vez mais retrógrado e uma cena cheia de gente canastrona. Eu era uma chata, e ainda que reconhecesse o poder de uma cena local no Rio de Janeiro (ou mesmo em Porto Alegre), eu nunca soube me ajustar socialmente como gostaria, ou imaginava ser o ideal.Sendo assim era mais fácil achar os outros canastrões forçados.Isso me protegia de amá-los e me fazia querer ser compreendida.Nada melhor do que a literatura para nos fazer compreender.Nada melhor do que a arte para despistar um caráter duvidoso.Não era esse meu caso, de qualquer modo eu sabia que se eu fosse realmente uma boa mulher estaria bem casada sendo ajudada pelo meu distinto marido nos afazeres domésticos. Nunca estaria escrevendo contos e novelas para televisão.Novelas que, diga-se de passagem, eram tão perfeitas e honestas que nunca passariam em nenhum canal.
O buraco negro dos escritores...escrever o que ? para quem? porque?
Comecei a compreender que estas questões estavam todas suplantadas na minha cabeça.O que importava agora era o estudo dos parágrafos, a perfeição dos sonetos,o alinhamento da trama.Tudo e qualquer coisa poderia virar um delicioso capítulo.A dança angular das abelhas na rua, o cego sanfoneiro na porta da igreja, a ciranda ecumênica das crianças ou aquele beijo.Ah...Aquele beijo! Em meio ao caos dos camelôs e da guarda municipal um casal de mendigos se beija lascivamente na boca no inicio da Uruguaiana.Pode a vida ser mais doce?
Tudo isso era maravilhoso e escrever era sim e também uma maneira de distribuir amor por aí...todo amor repreendido e encarcerado no peito que eu sentia pelos outros.O mundo era bom e eu sempre soube disso mas lidar com os seres humanos é complicado demais pra minha cabeça.Uma coisa é ir no Aterro ver os urubus e as gaivotas convivendo em perfeita harmonia.Ou mesmo os pavões e capivaras da Praça da Republica.Outra coisa são as gentes ...os egos do pessoal.Lidar com meu pobre e delirante ego já era penoso demais...escrever era uma maneira de aliviar o fardo comigo e com os outros também.Seria uma desculpa conveniente para tudo daqui pra frente...quem precisa ganhar mais? Quem precisa mudar de emprego? Pensar no futuro? Estudar nas horas minguadas que sobram enquanto tudo que a gente quer é se entorpecer ? Sendo escritora eu poderia me entorpecer nas horas vagas de literatura e delírio. Eu e meu universo particular...a confidente das musas, desbravadora das sensações,observadora do mundo quase invisível dos pássaros que voam alto e insensível dos homens de boa vontade que só pensam em ganhar dinheiro.Daqui pra frente ia contar todas as suas histórias encardidas e seus causos imprecisos no meu ritmo acelerado.
Isso tudo me acelerava também o coração e me enchia novamente a alma de sombras...Como sobreviver sendo escritora? Ora, todos sabem que até mesmo a mais simples das proletárias merece respeito.E mesmo o pobre professor surrado pelos cães de guarda do estado obtêm alguma dignidade.Mas quem respeita um escritor, ou o que é pior , uma mulher que se mete a escrever?Literatura é coisa de homens, assim como o whisky,os jogos de azar, a promiscuidade...Pois por mim não nos vão mandar sair da sala no melhor da festa.As mulheres não só podem, como devem se aventurar a escrever, desde que não enfiem o pescoço no forno enquanto as crianças dormem (assim o fez Sylvia Plath) ou tampouco pulem do 8°andar por uma janela com os vidros fechados (pobre Elise Cowen que hoje deve estar tomando cha no alem com Ana Cristina Cesar).

SOBRE AUTO SABOTAGEM E ROMANTISMO REQUENTADO OU "PORQUE OS AMORES NÃO CORRESPONDIDOS SÃO OS QUE MAIS CUSTAM A PASSAR".

Perdi mais uma vez a chance de ficar calada e talvez ate de ser feliz.
Conheci um cara doce e atencioso que tambem ama os beats.
A primeira coisa que ele me mostrou foi uma edição de poemas do Corso e do Solomon.
Também éramos compatíveis politicamente,ele abomina tanto quanto eu os reacionários de ponta do congresso.
Mas, como de praxe, estraguei tudo.
No nosso primeiro encontro lembrei de você e me entediei com o cara.
Ai discursei como uma ativista histérica do PETA ou uma militante mala do PSOL. Me posicionei radicalmente contra a industria automobilística e o cara, gentilmente, tinha acabado de se oferecer para me levar de carro em casa.
Para completar quando ele disse que frequentava uma região de bares da cidade conhecida como "calçada da fama" rugi como um cão feroz mostrando os dentes:"lugar de playboy".
Oh my god! O que deu mais uma vez em mim? Aposto que se ele se mostrasse um entusiasta dos black blocks ou um adepto da economia colaborativa eu falaria que odeio os pequenos burgueses acometidos de idéias comunistas falsas, ou algum discurso sem pé nem cabeça que o valha, só para dar o contra e assustar o cara. É uma necessidade infantil mais forte que eu de comunicar algo tipo "eu vim para confundir e nao para explicar".
Sim, eu sei…soa ridículo uma jovem senhora quase no climatério agindo como uma adolescente rebelde sem causa e estou me sentido muito mal por isso.
Preciso me tratar, quero dizer, aonde eu pretendo chegar sendo assim? Espantar um dos únicos homens minimamente decente e honesto que se aproxima de mim em décadas? Deus sabe como é dificl ser mulher neste mundo machista aonde nossas vozes invariavelmente são suprimidas,mas gritar feito uma doida que "odeio o mundo contemporâneo e a necessidade que os idiotas sentem de postar tudo no instagram, quem quer saber de suas vidas?", também já é demais.
Pois era o que eu gritava quando descobri que o cara tinha acabado de postar uma foto fofa nossa com a legenda"vou fazer uma canção para ela". É...ele só queria tocar uma musica fofa e romantica no violão pra mim....e cantar...com aquela voz de taquara rachada que ele tinha. Isso mesmo...TAQUARA RACHADA. Não estou criticando o cara para me sentir melhor, ele leva o credito por saber tocar violão mas se eu tivesse aquela voz horrivel eu jamais me arriscaria ...
A verdade também é que o repertório dele me irritou profundamente...Extreme, Marillion,Lulu Santos e ate Ivete Sangalo eu tive que ouvir pacenciosamente fazendo cara de que estava achando lindo.O cara não conhecia o Torquato Neto! Nem o Lou Reed ele conhecia !
Mas fora o gosto musical duvidoso ele era bem inteligente e equilibrado. Nada daquele fogo que eu gosto e sinto que consome a alma dos desmiolados feito eu...mas era um cara maneiro.
A culpa e toda sua tambem, ta sabendo neh? Onde voce está quando preciso de você?
I'm with you in Rockland, i'm with you in Rockland,i'm with you in Rockland...esperando,esperando,esperando você enquanto converso sobre literatura com um outro qualquer.
É tão difícil viver neste mundo real que desde que você se foi ta sempre cinza...Horrível ser obrigada a andar de bicicleta sorridente, adquirir bons habitos alimentares e passear a beira mar no ritmo da bossa nova sabendo que você esta tao distante…
Por que não posso viver no Brooklyn com você? Imagina! A gente se metendo em encrencas com a mafia siciliana ou fazendo amizade com os judeus ortodoxos de Williamsburg que curtem marijuana?
Porque não posso viver como nos filmes que eu gosto? Só porque você não me ama e nem pensa em mim como eu em você? Ora me poupe, mas isso não é motivo.Sabemos muito bem que aventura nada tem a ver com amor.Que na verdade quase nada tem a ver com amor e que romantismo é uma sopa fria que os esfomeados teimam em requentar.
Então por favor apareça e me salve deste purgatório insosso que virou a minha vida desde que voce partiu.
Será que você está feliz casado com uma garota comum que te aceita e te compreende? Uma...uma psicologa mais jovem,empreendedora ou bonita que eu? Uma mulher rica e adorável que te apoia nas suas insensatezes e não questiona seus ataques paranoicos? Uma cantora?Professora?Atriz?
É bem provável mesmo...e eu sigo acreditando que sou sua Martha Gellhorn,sua Joan Volmer.Sigo esperando meu grand finale ao seu lado à la Guilherme Tell (nas minhas fantasias sou eu quem atira,presta atenção ).
De onde eu tirei que voce é o único homem capaz de me fazer rir,de me fazer rir de verdade principalmente de mim mesma?
De onde eu tirei este monte de imagens que se soprepoem como um caleidoscopio em minha mente? Imagens suas, minhas,nossas,se confundindo em décadas que nem existiamos,esmorecendo em meio a fumaça de cigarro e aos hits de uma jazz band...
Da proxima vez que sair com alguém prometo que vou ficar caladinha e dizer que amo os liberais e a MPB.
E quando voce voltar (se voce voltar),estarei nem ai para você,engajada numa causa idiota qualquer sugerida pelo meu novo amor.
Tudo so para te provocar ...e quero ver você não se importar.