Um dia um amigo me disse que a melhor coisa do mundo é se tornar aquilo para o qual voce nasceu.
Hoje compreendo o que ele queria dizer...
Se tornar aquilo para o qual você nasceu não significa que voce vai estar feliz, rico, completo,correto.Na verdade é meio até que o contrário.Significa que voce vai estar pouco se lixando para o que voce deveria ser...porque estará demasiado ocupado sendo.
É complicado mesmo, mas desde que decidi me tornar escritora liguei o foda-se para as convenções sociais.
No começo era só o medo, a insegurança...
O que significa ser escritora? Tenho que lançar livros ou só escrevê-los? Terei perrengues financeiros e a família despedaçada,ruína total? Com sorte sai todo mundo fisicamente ileso,nada de crimes passionais. Burroughs não teve esta sorte,Euclides da Cunha também não.Não quero nem falar dos suicidas, Santo Hemingway que me perdoe.
Mas nada disso é pensado ou tem importância quando voce está decidido a ser aquilo que está escrito, se é que os deuses se atrevem a escrever narrativas sobre os homens.
Acordei numa manha ensolarada em julho de 2016 e antes do café decidi que não poderia mais me esconder.
Decidir-se pela arte é uma problemática de proporções catastróficas e ninguém aqui pretendia se arrepender dos novos empreendimentos.Por isso cada passo deveria ser friamente calculado.
Para se tornar escritora era preciso romper com algo maior do que pátria, família,propriedade.Era preciso mais do que se expor.Era preciso, antes de tudo, ter vocação para o ridículo.
Sendo assim eu estava tranquila porque sempre me senti medíocre e conformista.Agora eu seria uma ESCRITORA medíocre,conformista e ridícula e isso me soava muito bem...ou muito melhor, melhor dizendo.
Ser ridículo é melhor do que ser covarde...e convencida disso fui viver meu primeiro dia de escritora com o peito estufado de coragem e satisfação pessoal.
Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio...não são palavras minhas...são do Dostoievski,o véio tinha o que dizer...
A primeira coisa que fiz naquele domingo ensolarado foi procurar alguma bebida pela casa.No texto voce até pode dar a largada de cara,mas depois necessita de um aditivo para dar vazão aos seus mais íntimos pensamentos e prospecções, por mais de uma ou duas horas.
Não sei se acontece assim com todo mundo, provavelmente nao...Não imagino Charles Dickens ou mesmo Jane Austen se embebedando para escrever.Mas na lista dos escritores que eu admiro constam 10 talvez 12 malditos alcoolatras : Allan Poe, Bukowski, Dorothy Parker,Anne
Sexton, Kerouac, só pra citar alguns...Ninguém aqui esta dizendo que se deve beber como eles...mas em doses moderadas o alcool ajuda no desenvolvimento dos temas,fato!
Depois que encontrei um resto de vodca na geladeira (e fiz uma doce caipirinha), sentei-me animada em frente ao computador...o que fazem os escritores afinal? Escrevem para o nada? Embebedam-se para ter o que contar? E o que contam? Para quê , para quem, Senhor?
Esta era a primeira grande batalha que eu deveria vencer se quisesse realmente me tornar uma escritora que, ridícula ou nao, seria verdadeira.
A arte pode ser boa,a arte pode ser ruim, mas a arte nunca deve ser falsa. Essa era minha maior preocupação e nao tem nada a ver com caráter ou outras perspectivas moralistas que os "patrulhadores da vida dos outros" nos impõem.Ser verdadeira com os amigos e com os que nos rodeiam é importante, lógico.Mas minha preocupação utopica era ser verdadeira com o texto.Ser minimamente sincera...o leitor não está afim de ser enganado e descobrir o engodo antes do final da história ou do poema.Isso tampouco tem a ver com as possiveis dúvidas a cerca da veracidade dos fatos.Os fatos do texto não são os fatos da vida do autor,não necessariamente...
Toda esta confusão crescia dentro de mim e escrever era a única motivação realmente sincera que encontrava para a vida.Ser mãe era singelo e reconfortante mas não era o suficiente...eu precisava escrever.
Então histórias e mais histórias começavam a se entrelaçar na minha mente 24 horas por dia.Mesmo os sonhos eram agora alimento para o que eu , depois de tanto tempo e de tantas reflexões,decidira me tornar.
Nesse novelo miscelânio de propostas decidi me guiar pela intuição e, a primeira coisa que recebi, foi um sonho onde os animais conversavam comigo.
Recorrendo, assim que amanheceu, ao dicionario de sonhos, descobri que alguma coisa dentro de mim tentava se estabelecer, sair, pular pra fora a qualquer custo. Sonhar com animais falantes tem a ver com uma força interior que todos temos, mas que teima em se esconder envergonhada de tamanho terremoto que possa causar. Ou do ridículo. Eu já tinha perdido o medo do ridículo uns 4 parágrafos antes...
A segunda coisa que me inspirou a tomar uma das maiores decisões da minha vida foi um teste oracular que fiz no facebook que disse que eu estava me aproximando de mim mesma. Bingo! Bazinga! Yeahh! Era tudo que eu precisava ouvir do mestre Zuckerberg. Alguns outros pormenores existenciais contribuíram em meus últimos momentos de decisão...a solidão, a falta de grana, o niilismo,a revolta com um país cada vez mais retrógrado e uma cena cheia de gente canastrona. Eu era uma chata, e ainda que reconhecesse o poder de uma cena local no Rio de Janeiro (ou mesmo em Porto Alegre), eu nunca soube me ajustar socialmente como gostaria, ou imaginava ser o ideal.Sendo assim era mais fácil achar os outros canastrões forçados.Isso me protegia de amá-los e me fazia querer ser compreendida.Nada melhor do que a literatura para nos fazer compreender.Nada melhor do que a arte para despistar um caráter duvidoso.Não era esse meu caso, de qualquer modo eu sabia que se eu fosse realmente uma boa mulher estaria bem casada sendo ajudada pelo meu distinto marido nos afazeres domésticos. Nunca estaria escrevendo contos e novelas para televisão.Novelas que, diga-se de passagem, eram tão perfeitas e honestas que nunca passariam em nenhum canal.
O buraco negro dos escritores...escrever o que ? para quem? porque?
Comecei a compreender que estas questões estavam todas suplantadas na minha cabeça.O que importava agora era o estudo dos parágrafos, a perfeição dos sonetos,o alinhamento da trama.Tudo e qualquer coisa poderia virar um delicioso capítulo.A dança angular das abelhas na rua, o cego sanfoneiro na porta da igreja, a ciranda ecumênica das crianças ou aquele beijo.Ah...Aquele beijo! Em meio ao caos dos camelôs e da guarda municipal um casal de mendigos se beija lascivamente na boca no inicio da Uruguaiana.Pode a vida ser mais doce?
Tudo isso era maravilhoso e escrever era sim e também uma maneira de distribuir amor por aí...todo amor repreendido e encarcerado no peito que eu sentia pelos outros.O mundo era bom e eu sempre soube disso mas lidar com os seres humanos é complicado demais pra minha cabeça.Uma coisa é ir no Aterro ver os urubus e as gaivotas convivendo em perfeita harmonia.Ou mesmo os pavões e capivaras da Praça da Republica.Outra coisa são as gentes ...os egos do pessoal.Lidar com meu pobre e delirante ego já era penoso demais...escrever era uma maneira de aliviar o fardo comigo e com os outros também.Seria uma desculpa conveniente para tudo daqui pra frente...quem precisa ganhar mais? Quem precisa mudar de emprego? Pensar no futuro? Estudar nas horas minguadas que sobram enquanto tudo que a gente quer é se entorpecer ? Sendo escritora eu poderia me entorpecer nas horas vagas de literatura e delírio. Eu e meu universo particular...a confidente das musas, desbravadora das sensações,observadora do mundo quase invisível dos pássaros que voam alto e insensível dos homens de boa vontade que só pensam em ganhar dinheiro.Daqui pra frente ia contar todas as suas histórias encardidas e seus causos imprecisos no meu ritmo acelerado.
Isso tudo me acelerava também o coração e me enchia novamente a alma de sombras...Como sobreviver sendo escritora? Ora, todos sabem que até mesmo a mais simples das proletárias merece respeito.E mesmo o pobre professor surrado pelos cães de guarda do estado obtêm alguma dignidade.Mas quem respeita um escritor, ou o que é pior , uma mulher que se mete a escrever?Literatura é coisa de homens, assim como o whisky,os jogos de azar, a promiscuidade...Pois por mim não nos vão mandar sair da sala no melhor da festa.As mulheres não só podem, como devem se aventurar a escrever, desde que não enfiem o pescoço no forno enquanto as crianças dormem (assim o fez Sylvia Plath) ou tampouco pulem do 8°andar por uma janela com os vidros fechados (pobre Elise Cowen que hoje deve estar tomando cha no alem com Ana Cristina Cesar).
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