sábado, 9 de abril de 2016

Triângulo incomum

UM DIA ESTRANHO
Anita saiu de casa cedo naquela manhã. Algo entre o primeiro estrondo de sol nascente e a buzina de ônibus.
Seguia como todos e todos os dias o seu caminho quando recebeu a ligação.
Vestia uma calça jeans com uma blusa comprida e esvoaçante, uma pulseira descascada e as orelhas vazias, gostaria de nunca ter furado as orelhas."Diferente agora", pensou ela, "era não ter tatuagens." Interrompida exatamente no nonsense pensamento, Anita recebeu a ligação de Jonas.
-Oi - me diz aí, quanto tempo.
-Anita a parada é seria, vou morar no Rio de Janeiro e quero casar com você..
-Como é que é?
E assim num rompante de assombro e delírio, Anita pulou do ônibus e correu pelo aterro do Flamengo como uma desvairada as 8 da manhã. Chegou 20 minutos atrasada no seu emprego proletário, que pagava mal mas lhe fazia bem, e perdeu o direito ao cartão refeição do mês, honraria prestada aos funcionários exemplares (funcionais?), que nunca se atrasam e nem sabem enrolar.
Sempre quisera este casamento mas o "louco do sobrado", apelido carinhoso que lhe dera Anita, só gostava de loiras e divagações. Cansou-se dele como cansou-se de Deus a mulher de Jó.
E agora aquela noticia súbita, desengonçada e por que não estranha?
Durante o dia de trabalho, papéis e traças, porque só os livros são solenes (por isso trabalhava em uma livraria), Anita divagou sobre o amor, leu um pouco de Ovídio entre o fim do almoço e o começo da tarde, atendeu uma cliente com convicções niilistas, o que lhe deu um sórdido prazer, e foi embora no fim do expediente despedindo-se dos clientes e colegas, decidida a aceitar o pedido.
Ao entrar no elevador do prédio o porteiro lhe chamou:
- Ô dona Anita, tem um buque de flores aqui pra senhora.
Um misto de intumescimento e medo desfigurou Anita:
- Como é que é?
- Isso aí, e tem mais, o cara que trouxe tá doidão dormindo ali atrás do prédio,acho que ele tomou uns quente enquanto esperava a senhora.
Anita em pânico, partiu pela lateral do prédio pisando nos escombros da calçada em reconstrução. Lhe ocorreu no caminho que tudo era fugaz e voraz, assim como agiam os sapatos e as bicicletas sobre a pedra portuguesa, agia o tempo sobre suas pálpebras.
Quando chegou aos fundos do prédio deu um grito:
-AHHHHHHHHHHH. Péricles? O que você esta fazendo aqui?
Mas Péricles não respondia e em seu silencio embriagado e profundo olhou pra ela e vomitou, agarrado a uma garrafa de cachaça barata.
Depois de um banho frio, dois cigarros e três cafés, Péricles se recompôs e deteve-se explicando-se das maneiras mais medonhas possíveis.
- Fala logo Péricles, o que você quer? Não vai me dizer que quer casar comigo? ahahahaha
- Não, quê isso Anita...
(e um anjo mal encarado passou na sala deixando um silêncio sepulcral.)
-Na verdade não e sim...depende...
- Fala logo, homem, o que tu quer e vai embora que eu preciso dormir ... essa vida de escrava urbana acaba com o meu glamour.
-Eu quero fazer um cruzeiro com você. Os dias de dureza acabaram, Anitinha, o titio aqui apostou alto e acertou em cheio.
Gastei meus últimos vinte reais na loteria, fiquei até sem cigarros por isso, mas deu certo.
Eu estou rico e quero viajar com você ...vamos fazer um cruzeiro, nos divertir, curtição total, yeah!
- Mas como assim?Ficou rico? E que historia é essa de curtição total, semana passada quando me declarei para você pela 5° vez você me disse que esse papo de amor não tá com nada.
- Tudo bem Anita, mas nós vamos como amigos, sei lá, a gente mergulha na piscina, enche a cara, toma algumas drogas e depois pensa nisso, vê qual é, sacou?
- Vê qual é? Sei...olha só gato, na verdade eu queria te dizer que eu estou NOIVA.
- Como?
- Isso aí, assinzinho como você ouviu, como Moisés ouvindo à Deus no Monte Sinai ou Arjuna recebendo instruções de Krishna em meio à guerra e destruição.Tudo muito sério...
Eu vou me casar com o Jonas.
- Que? O pescador? E vão morar num barco ou numa ilha? AHAHAHAHAHA
- Escuta aqui, eu me amarro na sua, mas não precisa ficar com dor de cotovelo só porque eu vou casar.
- Eu? Fala sério? Eu não acredito no amor, isso é coisa de quem não tem mais o que fazer, os novos comunistas querendo dar o contra no axioma que eles mesmos criaram só para parecerem modernos. O amor é alienante.
- Beleza, então você que não ama e também não trabalha, por favor retire-se do meu recinto porque eu preciso dormir, ainda não ganhei na loteria.
- Tá bem...então, boa noite. E obrigada pelo café. Ah! Se quiser posso lhe emprestar algum dinheiro...amanhã.
E saiu chutando as pilastras sob a penumbra da bebedeira e da perplexidade.
CHEGADA DE JONAS
- Você já está com a voz embargada Jonas, aff!
 Que coisa estranha conversar com você bêbado sobre o casamento, e os convidados, e tudo mais.
- Convidados? Você falou convidados? Convidados só servem para uma coisa, ponha isso na sua cabeça: comer e beber às suas custas. Faça um pequeno churrasco para os íntimos e sinta o que são convidados quando tiverem roubado seus cds e quebrado sua privada.
- Ah. Sem convidados. Já havia imaginado. E como você pretende casar-se comigo?
- Então, pensei que podíamos falar sobre isso amanhã ou aos poucos entendeu? Mas não assim de cara, tô cansado da viagem.
- Hum, claro, claro, mas só queria te dizer que só poderemos casar depois das férias porque vou fazer um rápido cruzeiro com o Péricles.
-QUÊ???????? Cruzeiro com o Péricles? AHAHAHAH. Só se for até a Bahia de Guanabara. E você vai pagar a cerveja.
- Pois pra seu governo gatinho, eu não vou pagar 1 real, e mesmo que pagasse, o Péricles ao menos não me enrola.
- Te enrola? E por que ele deveria te enrolar? Anita, mon amour, presta atenção, eu quero CASAR com você.
- AH, agora quer falar sobre o casamento? Poxa, era melhor deixar pra outra hora, você está muito cansado da viagem.

O AMOR É DE NINGUÉM
Nas semanas seguintes, Anita deteve-se mais do que nunca à reflexões vazias, ideias esfumaçadas, chiaroescuro em pensamentos oblíquos e desajeitados.
Nada lhe tirava da cabeça que as duas coincidências estavam intimamente ligadas, fosse por uma conjunção astral absurda e não alcançada pela ciência (assim como as grandes teogonias místicas), fosse pela conversa que havia tido com Péricles meses atrás.
Tudo corria imperfeitamente bem quando Anita resolveu-se por amar aqueles dois homens, e nada nem ninguém conseguia dissuadi-la daquela ideia fixa, quase obcecada, deste triângulo aparentemente impossível, visto que nenhum de seus escolhidos fazia a mínima questão de relacionar-se com ela em condições normais de temperatura e pressão.
Meses antes, em meio a doses cavalares de vodka, Anita soltou o verbo e confessou para Péricles no meio da noitada:
- Tenho tudo planejado.
- Como?
- A gente, digo, nós três... nossa vida no interior e os filhos e cachorros que iremos adotar.
- Desculpe Anita, não estou ouvindo nada, o som tá muito alto, esta banda arrebenta, yeah!!
Me dá licença, daqui a pouco eu volto, tem uma garota sorrindo pra mim na fila do banheiro feminino,vou até lá...
E agora aquilo? Um cruzeiro e um pedido de casamento?
Era mais do que nunca hora de agir, mas, e se "Péricles contara a Jonas e eles resolveram me pregar uma peça?", e se "fora só uma coincidência e os dois ao mesmo tempo realmente se deram conta que eu sou a mulher mais incrível que eles conhecem?". Ainda assim seria estranho, Anita conhecia o seu poder de sedução agora que era uma mulher segura, madura e sensata(??), mas sabia também que no colegial nunca fizera sucesso como Michele e Renatinha, suas colegas balizas da banda.
Precisava ainda assim descobrir o que estava por trás daquela maluquice de casamento e cruzeiro e resolveu marcar um encontro para, enfim, declarar sobriamente os seus sentimentos.
Sabia de antemão que seria rechaçada, mesmo assim precisava contar definitivamente o que sentia, ainda que parecesse ridiculamente pretensiosa ou vadia (coisas que os homens necessitam pensar para sentirem-se melhor em relação às mulheres com personalidade não contemplativa).
- Péricles, Jonas...eu amo vocês. Os dois, sem tirar nem por. Sei que parece absurdo levando-se em consideração as estatísticas demográficas de gênero no país, mas ou eu fico com os dois, ou não fico com nenhum.
- Ah é? Disse Jonas de maneira descontroladamente impiedosa, - e como pretende dar conta dos dois?
-Você está sendo indelicado Jonas...
- Ahaha. Indelicado? Eu estou sendo prático docinho. Quero saber até onde vai a sua loucura.
- Tá bem. Acho que podemos dividir, segunda quarta e sexta eu fico com Péricles, terça, quinta e sábado com você. No domingo faço as unhas e visito a mamãe.
- E o amor vai ser igual para os dois? Perguntou abismado Jonas.
- Epa, epa, epa. Sem essa de amor para os dois.Já falei que não acredito no amor...é uma invenção Hollywoodiana besta para enrolar os idiotas e obrigá-los a comprarem presentes no dia dos namorados.  Ou o amor é de ninguém, ou eu saio deste triângulo sem nem ter entrado - retrucou tacitamente Péricles.

sábado, 2 de abril de 2016

Vício ou piada de mau gosto? L'amour...

Laura postava coisas sem sentido em sua própria caixa postal.
As vezes contas de luz rabiscadas de batom, ou uns cartões de natal antigos,que ela guardava desde a infância.
Não sabia exatamente porque,mas tinha compulsões excêntricas,que muitas vezes davam trabalho.Como se fossem pequenos mimos que regalava a si mesma.Ou aos outros...
Levava de presente uma maçã,elogiava o óbvio de maneira criativa,lavava a louça dos convivas ou lhes escrevia poesias.
O fato é que prestava-se à pequenos engenhos existenciais,e via na exuberância mínima dos insetos a máxima das explicações místicas à cerca do universo.
Era doce, gentil, sóbria e... torpe.
Na porta da 13°
Ninguém podia acreditar no que via.
Sua mãe chorava, os olhos em intermináveis inundações embasbacavam-se com o que teria que aceitar.Sua filha,querida Laura, "ah querida Laura!" era uma assassina.
Na porta da 13°, as mãos ainda impregnadas de sangue,Laura observava tudo com a frieza impressionante dos que sabem não poderem mais voltar atrás.
Por que fiz isso?
Teve a mesma sensação de quando instintivamente dera, impulsionada pela furia, um tapa no braço de seu primogênito que lhe deixara os dedos marcados.Tarde demais ... como reaver o ato à ponto de transmutá-lo? Não era mais possível e desta vez não poderia simplesmente se desculpar ou comprar um brinquedo novo.Laura sabia disso.Sabia também que seus bons antecedentes e seu diploma de curso superior lhe diminuíram a pena.
Fosse homem perderia totalmente a simpatia de uma juiza...rezava para ser uma juiza!
Pobre Laurinha...A louca Laura.Como pode?
Duas horas antes, no saguão de um motel com iluminação dicroica,quadros com motivos bucólicos,carpete cinza. (discutia com seu ex noivo que tentava reatar com ela)
-Cara,desisti, foi mal, não quero mais , outro dia a gente se fala...
-Como é que é ? Eu vim aqui pra ir embora? Nada a ver.
-Já bebi 6 caipirinhas e fumei um.Tomei remédios demais pra dormir ontem, não me sinto bem.
-Ah vamos subir e lá em cima você dorme.
Uma hora antes , no quarto de motel salmon com cortinas beges pesadas, lençóis verde claro e um lindo vaso de alabastro moderno,compondo a decoração
-Me deixa sair, quero ir embora!
-Por essa porta você não passa,até se calmar,até eu falar com você, porra!
-Me deixa saiiiiiiiirrrrrrr!
-Não
-Socorro!Quero sair daqui...
-Eu sou mais forte querida,você não vai conseguir..
Um vaso não deveria causar tanto estrago
O que restava à Laura? Quem acreditaria nela?
 O faxineiro machista que a ouviu pedindo socorro e nada fez? Deus? Aonde estava Deus agora que ela debandara-se definitivamente para o outro lado? Deus viraria-lhe a cara com razão.
Torpe Laura...
Levantou a cabeça,lembrou-se de seus princípios morais que ainda que temporariamente estremecidos,moravam nela tanto quanto sua vocação estoica.
Lhe ocorreu que enxergaria no espelho uma heroína,um pequeno mimo dos que regalava a si mesma em segredo.
Afinal, eram históricos os humores alterados dos que são acometidos pelo amor.
Agora ao menos,afastaria-se definitivamente ou por um longo tempo dele.
AMOR...O verdadeiro culpado que agia em Laurinha com garras de fogo, imbuído pela grande e sensual senhora: a Paixão e entorpecido pelo monstro de olhos verdes que atordoava Otelo:o Ciúme
Ao pensar nisso estremeceu, e interceptou seu pai, que já ligava para o advogado amigo da família.
-Não pai, quero chamar outra pessoa.Tenho um amigo especial que poderá me ajudar.
Lembrou do rosto profundo e pragmático de seu vizinho, advogado criminalista com quem teve um rápido affair no passado.Era a oportunidade perfeita para reencontrá-lo.
Lembrou das suas mãos e do dia em que ele chorou vendo um filme.Mesmo homens pragmáticos choram e as mulheres sempre se  enternecem quando veem um homem chorar.
É Laura, você não poderia viver tão só, na prisão, sem um novo amor, uma maneira suave de passar os longos e duros dias...
Teria novamente alguém para pensar  além do morto com traumatismo craniano.

Quando cessam as tentativas

Laura não sabia ficar bem no amor.Estável em um relacionamento...
Estar feliz com outrem era para ela um enredo obscuro de potencialidades inúteis que sempre, mais cedo ou mais tarde, se esvaiam.
Então ela ia conhecendo pessoas das mais diferentes estirpes,bêbados, escritores frustrados, cantores de rock, jornalistas,oftalmologistas lésbicas, missionários, gays convertidos ao Evangelho...
Mas nada,nada sossegava o coração de Laura que sabia que toda a estabilidade era inútil porque a vida arrumaria uma maneira ainda mais pérfida do que a solidão para traí-la.
Até que um dia ela resolveu redimir-se dos seus mil amores infelizes e foi viver em um mosteiro.
Fez a mala e despediu-se dos 2 filhos, resultados amenos da agonia que era para ela o amor. Decidiu que seria melhor submeter-se á misantropia , retirar-se definitivamente da infinita busca inútil de amar e ser amada sem dor.
Como se tivesse cavado um buraco profundo demais de onde não mais haveria de sair, Laura convenceu-se durante toda vida de coisas tolas e medonhas.
Muitos lhe avisaram que se transformaria irrevogavelmente naquilo em que acreditara mas nada adiantou.
Talvez fosse culpa da sua criação estranha e castradora, talvez fosse sua natureza ultra romântica, mas o fato é que Laura nunca conteve-se ou contentou-se com uma vida sentimental tranqüila.
Amar para ela era um misto de prazer e suplicio,como se agissem sobre ela forças que de tão contraditórias anulavam-se e anulavam a possibilidade normal e decente de ser feliz.
E mesmo no mosteiro ela não parava de refletir, lia e relia tratados sobre o assunto: Ovídio, Ghoethe,Cícero.Nada lhe era mais prazeroso naquelas manhãs solenes de pássaros,sol e silencio do que a entrega de si para consigo mesma.
Sempre, durante toda a vida, lhe assaltaram os pensamentos necessidades eruditas e contemplativas de submeter o espírito à pequenos tormentos para fortalecer-se.
Tinha medo quando mais jovem, que isso fosse uma espécie de desvio psíquico, de desiquilíbrio mental, no entanto agora, ao escutar o sussurro do vento enquanto bebia chá de hortelã que colhera em sua própria horta, Laura dava-se conta de quanto tempo perdeu indo de encontro a sua mais íntima natureza, querendo adaptar-se às imposturas sociais,coisas que não lhe cabiam:casamento, contentamento, a aceitação das limitações do próximo,em contrapartida o revogar de seus mais vis desejos, todos , todos eles sendo diariamente dobrados para fortalecer uma relação inócua mas sem intensidade, estéril pois está fadada ao fim como tudo mais.
Só os filhos lhe fortaleciam a alma,assim mesmo pensava nos pais deles como vítimas, assim como ela própria, do empreendimento ocidental hollywodiano.
Talvez se tivesse nascido em uma cultura longícua aonde as famílias seriam constituídas de maneiras diversas, muitas esposas ou muitos maridos em uma mesma casa.Todos como verdadeiros irmãos abençoados por Deus dividindo o pão,os sentimentos e os deveres escolares dos filhos.
Talvez se tivesse nascido em outra época, quando talvez ainda o cinema não tivesse impreguinado nossas cabeças com possibilidades esdrúxulas de um amor patriarcal, pueril e romântico entre duas pessoas.
Mas não... Laura sabia o quanto sua contemporaneidade corrompera todas as possibilidades de descoberta do amor romântico porque historicamente o romantismo era uma invenção do século XVIII.
Pensando em todas essas coisas Laura passava seus dias,semanas , anos,de silencio e afazeres agradáveis no mosteiro: lavava lençóis na beira do lago, tomava banho com os patos, comia pouco e mais que nunca saboreava cada mínima grama da comida.Lia, ainda, e sempre , pois sabia que esse era o seu convés sagrado, o refugio da alma que sempre lhe parecera atormentada e agora sossegava, aninhada nos finais de domingo amenos .Os domingos nunca haviam sido tão amenos com Laura e agora pela primeira vez, quando abriu mão de qualquer busca, Laura sentiu-se completa.
E foi num destes finais de tarde já velhinha , quando alcançava alturas de satisfação e contentamento exorbitantes,que ela reencontrou aquele homem, agora velho e tão diferente.
Não acreditara no que seus olhos viam, era ele,que a 40 anos atrás a fizera tanto bem e mal, exatamente como haveria de ser um grande amor.
Agora não mais dedicavam –se á noites voluptuosas, só andavam um do lado do outro, pisando na grama macia de pés descalços,pacientes como nunca a espera da grande transformação.Sentavam-se lado a lado nas refeições e apesar de falarem muito pouco entendiam tanto um do outro que só de olharem-se contentavam-se.
Laura conhecera aos 85 anos o amor verdadeiro e ele ironicamente era mais escandaloso para os que estavam de fora do que foram todos os seus amores impetuosos e juvenis durante a vida.Ele era sem esperanças, sem necessidades, sem retaliações ou contratos, ele era PURO,BOM E DESINTERESSADO como deve ser o amor.Não pedia nada tampouco oferecia..
Um ano depois seu grande amor morreu , era alguns anos mais velho e acometera-lhe o mais simples dos infortúnios : a velhice.
 Laura permaneceu ainda mais calada , mas internamente satisfeita e feliz á medida que a felicidade pode ser comprimida no peito, porque morreria enseguida também,tendo,ao menos uma vez, sentido o que é o AMOR , que a vida toda lhe parecera utópico.

Superstições amorosas e otras cositas mas...

Nunca dê a pedra do amor,que atravessou eras e eras glaciais,para o seu amor de verdade. Isso pode quebrar o encantamento do amor.
Como eu não acredito nestas coisas,dei,obviamente,um quartzo rosa de presente para o meu amor.
Se formos seguir a risca todas as superstições ficaremos aprisionados num mundo de liturgias e signos que não nos permitirá mais nada, nem sair de casa pela manhã.
Escolhi algumas superstições para seguir.Por isso creio que o quartzo rosa seja a pedra do amor e passei minha vida procurando uma em forma de coração.Quando encontrei,comprei e dei de presente pro Joseph.
O Joseph era um cara aprumado, conhecedor demais do pensamento materialista e riu da minha cara por eu acreditar no poder curativo das pedras.
Como eu não me importo que riam da minha cara, o Joseph terminou comigo depois de 6 meses.
Alegou que eu era bipolar e que gritei com a irmã dele.A irmã dele era eleitora assídua da ultra direita e obrigava as pessoas a comerem o que elas não queriam na casa dela.
Descobri depois, que o Joseph tava tendo um caso com a recepcionista da minha psiquiatra.
Bem que eu estranhava ele querer sempre me levar ao consultório, e ficar me aguardando durante a terapia.
Mesmo assim continuei a saga dos que nunca desistem do amor e saí para dar uma volta com meus melhores amigos, Lucilia,Juliano e Maura.
Uma noite, no 3° bar que entramos,conheci o Alberto.
Dei um perfume de presente para ele no primeiro dia dos namorados.
Dizem os supersticiosos que não se deve dar perfume de presente para o amor da sua vida. Mas eu desconheço ou finjo que não vi algumas destas convenções místicas exageradas.Quero dizer, você pode pular as 7 ondas mas não precisa amarrar 7 cores diferentes de fita na calcinha para passar a meia noite do réveillon.Dá trabalho demais e pode marcar o seu vestido.
Lógico que 8 meses depois o Alberto terminou comigo.Não tem nada a ver com perfume, cá entre nós,quantos casos de amor vocês conhecem que vingaram depois de uma noite regada á álcool e otras cositas mas? 
Oito meses... tô até no lucro.Não é na night muito louca sedenta de tudo, que se vai encontrar o grande amor da vida.
Foi aí que começou a trabalhar no escritório um rapaz muito decente, com cara de poucos amigos mas com um sorriso franco e um aperto de mão de dar inveja a muito homem sério e de caráter por aí.
No meio de uma reunião de trabalho ele me chamou para sair.Claro que eu disse que não.
Também não deu certo porque dois dias depois ele me chamou novamente e eu aceitei.
Saímos para um chopp depois do trabalho, nada demais.
Lógico que eu bebi sem brindar e nosso encontro nunca passou daquela noite porque ele me lembrou instantaneamente da máxima "beber sem brindar 7 anos sem transar" e depois disso  eu nunca mais olhei para cara dele no escritório.
Vai ver eu seja mesmo bipolar, mas o fato é que ele também não deixou eu pedir o petisco que eu queria ,alegando 1500 coisas sem fundamento relacionadas à quantidade de calorias ou nível de colesterol e,como voces já sabem,eu odeio que não me deixem comer o que eu quero. Vai ser chato assim na p...
Tô a um tempão sem transar mas não tem nada a ver com o brinde.Tem a ver em acreditar que no amor é assim:um dia se ganha,no outro se perde e de mais a mais voltar pra casa é sempre o melhor da viagem.
Por isso vou tirar férias mês que vem sozinha e entrar no avião com pé direito, que é pra tudo dar certo desta vez...

Tentativa numero 1 para driblar o sistema.

Natasha
Laurent
Clarck
Três personagens de uma história da vida,mais uma destas tantas milhões de historias que estão por aí para serem escritas.
A noite em que clarck laurent e natasha se encontraram na Lapa era uma sexta feira 13 e o céu com toda sua chuva ácida e metafórica despencava como uma torneira arrebentada sobre a cidade.
Os três beberam,fumaram,falaram de fotografia,beberam mais,falaram de suas preferencias filosóficas,um pouco de Nietzsche, Schopenhauer,Lao Tzé, foram em média 4 vezes cada um ao banheiro e decidiram então, assaltar um banco.
Ninguém sabe em que momento da acalorada conversa a bisonha idéia surgiu nem de onde surgiu aquela marreta, mas o fato é que estavam lá os três dando uma marretada na porta de um banco qualquer (destes que fazem a televisão nos enganar dizendo que as coisas não tem preço) ás 5:30 da manhã..
O FATO,ABSURDO OU SEGUNDA PARTE
Natasha chorava com as mãos sujas do sangue do vidro da porta que, apesar de ter quebrado, nao abriu o sufieciente nem para eles entrarem naquele banco vazio e devidamente blindado ás 5.30 da manha.Mesmo assim ela forçou o vidro,cortou as mãos e eles entraram.
Por dois minutos, talvez um pouco menos, eles estiveram como nunca na mesma onda,resultado das cervejas,baseados e idéias subversivas que saiam da existência comum entre eles naquela sexta feira 13.
Um minuto e meio de perder-se,do mundo cair como caiu o vidro,do vidro cortar como corta a vida.Um minuto e meio de sacação sobre o nada e suas indecisões, sobre o certo e o errado,as escolhas,essa coisa toda que todo mundo teima em dizer que tem um sentido e a gente procura-o sentido- na oração, no sexo , no dinheiro,no whisky e mesmo assim não encontra.
A sirene da polícia se aproxima...
30 ANOS DEPOIS
Clarck virou um rockeiro cinquentão,tem carro e moto.
Gosta de levar a mulher para sair de noite na moto.
Ainda bebe bastante e não pode assumir um cargo público porque sua ficha policial na época ainda era muito pesada em consequência do episódio do banco.
Vive bem graças ao dinheiro que já tinha de família e ao esmero empreendedor de sua mulher.
Laurent foi morar na França onde tinha parentes pois era neto de franceses.
Trabalhou em uma fábrica de sardinhas para comprar a passagem.
Conseguiu chegar até lá mas não conseguiu cidadania por culpa do incidente no banco.
Vive ilegal mas feliz, pois fala francês sem sotaque e parece que se converteu ao evangelho em Saint Etyenne, interior da França.
O único inconveniente e ter que mudar constantemente pulando de cidade em cidade, driblando a imigraçãoo.Mas sua mulher tem origem cigana e parece gostar.
Natasha recolheu-se durante 10 anos depois de 1 ano e meio de prisão por vandalismo e invasão de patrimônio junto com Clarck e Laurent. Depois resolveu ir á luta,fez mestrado, doutorado, mas nunca arrumou ninguém pra amar.
Tem eventuais namorados mas parece mais dada á erudição e aos devaneios.
A cicatriz de sua mão coça quando vai chover.
Ela e Clarck ainda se falam ás vezes por telefone, e já até se esbarraram num posto de gasolina onde demonstraram mutuamente um misto de consideração,pressa e tédio.
A Lapa vai bem obrigada e os personagens são outros,mas continuam conspirando . A marreta continua perdida por aí.
Marretas duram séculos...

No fundo do mar...

Laura sentia como se tudo tivesse se esvaziado suavemente dando aos pés a impressão de leveza,como se estivesse voando...
Acabara a aula,o trabalho, os filhos viajavam devidamente acompanhados por comissárias boazinhas para casa dos avós e Laura estava só e  sentia toda a emoção,medo e ansiedade de um primeiro encontro,emprego ou baseado.
Laura sentia-se infanto-juvenil e queria correr na praia, meditar, ler Nietzsche e comer verduras frescas.
Refletia em situações profundas, mas sua ocupação principal não era mais pensar no quanto o ser humano era pária de si mesmo.
Laura agora tinha tempo para fazer as unhas...Do nada parou de ter medo de mudar,e da noite para o dia mudou de religião, de emprego, de marido e foi viajar.
No caminho, um cruzeiro no maior dos iates com a maior das prestações, Laura preparou-se para conhecer um príncipe encantado, um homem gentil,inteligente, educado e bem sucedido.
Não era por mal que pensava assim , mas queria segurança, compreensão, camaradagem e paz, antes de mais nada.
Conheceu o Barman, um bêbado quarentão que não tinha nada da boa educação que esperava. Não lia filosofia e tinha expectativas sutis.
Laura amou-o de cara, um perdedor num mundo de doentes ganhadores.
E Laura voltou do cruzeiro apaixonada como nunca por aquelas coisas que o Barman dizia no ouvido dela, á noite, na proa do navio...E explodia louca com um amor que nascia, e roía agora as unhas antes pintadas,e refletia sobre companheirismo, a desvantagem das mulheres em serem escolhidas,as possibilidades eruditas da solidão...
Ao fim do cruzeiro decidiu manter-se apática, completamente distante da realidade como sempre fazia,pensou em jogar-se no mar,em continuar aquele namoro de viagem,em sumir,em fugir com o cozinheiro,ou com o comandante, fato esse, que haveria de ser melhor pensado e arquitetado.
O fundo do mar...
Laura pensava no fundo do mar como um alivio, onde tudo era translúcido e honestamente tocante,onde as horas passavam como cardumes coloridos,onde as dificuldades morriam na barriga de uma baleia.
Laura olhou o mar e foi viver,bem lá no fundo, aonde os sonhos trafegam entre o imaginário e o real e quase se concretizam, não fosse por um motivo:Laura acordara.
Eram 8:30 da manhã, seus filhos berravam e esmurravam-se num misto de derramamento de Nescau e terapia do grito...seu marido falava ao telefone e ao lhe ver acordando disse: "sua amiga da faculdade para você, disse que voces tem um seminário para apresentar hoje.Sua chefe também ligou, 2 vezes.Você está atrasada,tá tudo bem?"
Laura sentiu-se feliz e infeliz, nunca saberia afinal o que seria melhor(ou pior): marido, crianças e dor de cabeça ou o seu Barman de poucas opções e muitas trocas de fluídos?
Lembrou sorrateiramente, que sempre lhe restaria o fundo do mar!........

O encontro

Parte 1 - esperando no bar
Mauren e Roger sempre faziam assim, encontravam-se de dois em dois anos para celebrar a amizade e admiração mutuas.
Fazia frio e Mauren saiu na direção daquele lugar pequeno e amontoado para beber algo quente.Enquanto andava,sentia que nas esquinas o frio era mais contundente e castigante.
Não sabia o que iria acontecer naquela insólita e gélida noite mas sabia que, independente do que fosse, sempre estaria bem consigo mesma, em conjunção com as órbitas estelares mais sublimes e afinal de contas ela só queria se divertir.
Entrou no bar que ficava em frente ao viaduto em frente á carrocinha de cachorro quente e xis.
O bar tinha uma corda esticada transversalmente.Na corda uma série de guardanapos e papeis com bilhetes presos por prendedores de roupa.
  Mauren pediu um martini duplo e ficou lendo os bilhetes enquanto fumava e bebia.
Declarações de amor,devaneios, sugestões sobre o bar , um beijo de batom e uma estória maluca que encantou Mauren, sobre homens,pinças, luvas, potes de vidro, plantas e lagartas.
Dedicou-se depois a paquerar a garçonete, uma gótica meio estranha que parecia chorar quando sorria para os clientes.
Parte 2 – o amigo de Mauren
Mauren aproximou-se da porta e viu Roger vindo.
Roger era belo de uma beleza doce e esquizofrênica."Usa aquele cachecol há anos", pensou Mauren.
Abraçaram-se, pediram 1,2,3,10 cervejas e falaram em como eram boas aquelas noites em Porto Alegre quando não se tinha nem emprego nem dinheiro.Nada de grandes extravagâncias tampouco horários rígidos.Dedicaram um tempo á discutir ás intempéries da vida, celebraram a amizade.Ficaram bêbados e chamaram a garçonete para sair.Ela, sorrindo - chorando recusou.
Os dois apoiando-se levantaram.
Não sabiam como seria dali para frente, pois haviam bebido demais para mensurar aquela quantidade de sentimentos que pairavam sobre o universo naquela noite fria.
 Beberam em mais um bar aonde os garçons jogavam, indiferentes, toda água do mundo em seus pés. Tinham os pés lavados pelos garçons como Jesus teve por Maria Madalena e concebiam aquela experiência como única, frente á todo mistério que ainda lhes reservava a vida,pois ainda tinham 30 anos e sabiam, de modo inexplicavelmente incomum,que ter 30 anos não explicava nada.Estavam bêbados demais para encontrar respostas e conseguiram se despedir precariamente.
Separaram-se novamente pois  já buscavam, antes do início da amizade a 15 anos atrás,caminhos diversos.
Antes de despediram-se, no entanto,decidiram aonde seria o próximo encontro.
Parte 3 – A discussão
Mauren sempre tomada por rompantes de criatividade queria que fossem juntos pescar em um banhado ou que o encontro de desse em meio á ópera Tahnhousen.
Roger mais objetivo preferia um retiro de meditação budista.Dias e noites sentados em posição de lótus, não pensando ou comendo.
Mauren preferia a morte...
Decidiram, talvez inspirados pela lógica suicida de Mauren ou pela gótica garçonete que os recusou, que se encontrariam em dois anos no Cemitério Municipal .
Demoraram para chegar á um consenso mas finalmente quando chegaram, tomaram seus táxis e foram dormir o sono dos justos.
Parte 4-o futuro 2 anos depois
Chovia uma chuva fina e reticente.
Como de costume Mauren encaminhou-se para o encontro.
Chegando lá constatou que Roger ainda não havia chegado.
Achou encantador aquele momento, sozinha em meio aos túmulos e aquela chuva ora romântica ora sombria.Ela ali parada esperando um grande afeto, um amigo como poucos.
O que as pessoas esperavam afinal da vida? Um sorriso despretensioso,uma consideração mínima, a lembrança de uma data especial?
 Seu coração gelou...pensou que Roger poderia não vir porque poderia ter casado , esquecido, viajado.
Lembrou da máxima filosófica que cultivara a vida toda: nunca se deve esperar nada de ninguém.
A certeza triste e agudamente sensata de que todos sempre te magoarão.Esta ideia dava a Mauren uma certa segurança, a certeza inversa de que ela mesma poderia não cumprir uma promessa, ela mesma estaria perdoada frente á ingratidão do mundo, caso magoasse outrem.
Passada uma hora de atraso Mauren se foi.Nunca mais soube de Roger, que chegou 1 dia atrasado pois confundira-se com os fusos horários do Japão (aonde passava suas férias) e do Brasil.
A cara do Roger dar este tipo de vacilo.
Mauren nunca teria esta constatação, pois a vida nunca mais juntara seus destinos.
Ainda assim o que eles viveram em rápidos e loucos encontros ainda existe, ao menos na cabeça da garçonete gótica que nunca esqueceu aquele casal maluco.

Amor em tempos de internet (frustrado)

Nick name de Laura-Rosa (em homenagem à Rosa Luxemburgo)
Nick name de Seu grande amor -Rocinante (em homenagem ao cavalo de D Quixote)
Laura engoliu o grito.
Não seria propriamente um grito de horror ou de medo, mas um grito de angustia.
Não podia acreditar no que vira...
Seu grande amor era corcunda e pesava uns150 kg distribuídos em 1.90 de altura. Tinha problemas de glicose alta, pressão alta, altas dores nas costas.
Por meses e meses eles trocaram e-mails sobre literatura e vida. 
Seu grande amor fazia citações do Alcorão, gostava de boa música francesa e frequentemente os comparava à Abelardo e Heloísa. Questionavam sempre se o verdadeiro sentido do amor, assim como o do casal do fim da idade média, seria não realizar-se.
Seu grande amor sabia latim e sempre recheava os e-mails com frases profundas da língua verdadeiramente cristã.
Pareciam feitos um para o outro, queriam as mesmas coisas, apreciavam vinho branco no domingo de manhã com uvas, tinto no sábado à noite com chocolate meio amargo.
Contavam bons causos da infância um do outro e, apesar de serem contrários na filosofia econômica (Laura era marxista, Seu grande amor liberal), queriam passar seus anos finais no mato, cultivando hortaliças e batatas.
Laura sempre sonhara com alguém gentil que a fizesse acreditar que a vida é mais amena do que tenta parecer. Fora isso, precisava de alguém que a fizesse ter disciplina, sabia que era uma pessoa altamente influenciável (não que não tivesse personalidade, continuaria a ouvir punk rock alto, indo de encontro às preferências musicais eruditas de Seu grande amor), e uma pessoa menos austera, mas mais objetiva lhe faria bem.
No entanto ele era gordo, corcunda, careca. 
Laura olhava de dentro do táxi perplexa: “Ele mentiu. Disse que tinha um metro e noventa, olhos azuis, era forte.”
Ao que tudo parecia ele realmente tinha os olhos azui, e era bem forte. Algumas  coisas Laura também havia mentido ao Seu grande amor, disse que tinha somente um filho e tinha dois. Disse que era doutora em filosofia e mal terminara a graduação em letras.
Seu grande amor não mentiu em tudo, era realmente um escritor de vida tranqüila, que conseguira, aos 39 anos, muito mais profissionalmente do que Laura conseguiria. 
Pagava um condomínio alto em um prédio confortável com seus ganhos com contos e novelas para classe intelectual. Participava de filmes como co-roteirista.
 Laura gastava tempo demais bebendo e escrevendo poesia, por isso precisava trabalhar em dobro para pagar as contas.
Mas eram sem dúvida e, apesar das mentiras, feitos um para o outro.
 Laura pediu que o taxista desse a volta na quadra e passasse novamente no mesmo ponto de ônibus onde haviam combinado, (ele estaria de chapéu e ela com um lenço no pescoço). 
Lembrou-se do dia em que ele passou mal de uma gastrite e foi para o hospital. Ficara 4 ou 5 dias sem lhe escrever, Laura ficara triste, sem vontades maiores até de comer bolo de kani ou lasanha de berinjela, seus pratos preferidos.Perdera completamente a fome. 
Pensou rapidamente em como seria aquele homem, bem diferente do Adonis que havia imaginado na sua cama, beijando-a, amando-a. Pensou que se não descesse do táxi não mais poderia lhe escrever, pensou em como foi tola não enviando ou exigindo uma foto. 
Foi tudo tão rápido e bonito que ela agora não saberia como agir, ainda que quisesse. E imagine se ela chegasse primeiro e ele não gostasse de sua cor pálida, seu cabelo sem brilho, suas unhas por fazer?
 Mas aquele homem que lembrava mais um Nosfetaru com problemas de balança já era demais – perái! - pensou ela. Tudo tem limite, meu Deus!
Laura mandou que o táxi seguisse e seguiu sua vida ciente de que era um ser humano pequeno e superficial, mas que tinha um poder crucial e determinante sobre suas escolhas. 
Sabia que naquele momento, enquanto era mesquinha e petulante, agia sobre suas próprias possibilidades históricas, fossem elas nobres ou não. Ela exercia o livre arbítrio ciente de suas responsabilidades. 
Arrependeu-se um tempo depois, pois não conseguira sair da depressão que lhe acometeu aquele dia.
 Escreveu para ele e não obteve resposta. Era tarde demais...
 Seu grande amor casara-se com uma antiga amiga que ficara viúva e era nutricionista. Em seguida emagreceu bastante e tratou seus infelizes sintomas de pouca saúde.
Ele e a esposa correm na praia, viajam para lugares exóticos e fazem arte terapia. 
Laura continua errante, prefere pensar que o mundo de Deus é assim mesmo, imperfeito, e que o verdadeiro amor é o que nunca se realiza.