sábado, 2 de abril de 2016

Quando cessam as tentativas

Laura não sabia ficar bem no amor.Estável em um relacionamento...
Estar feliz com outrem era para ela um enredo obscuro de potencialidades inúteis que sempre, mais cedo ou mais tarde, se esvaiam.
Então ela ia conhecendo pessoas das mais diferentes estirpes,bêbados, escritores frustrados, cantores de rock, jornalistas,oftalmologistas lésbicas, missionários, gays convertidos ao Evangelho...
Mas nada,nada sossegava o coração de Laura que sabia que toda a estabilidade era inútil porque a vida arrumaria uma maneira ainda mais pérfida do que a solidão para traí-la.
Até que um dia ela resolveu redimir-se dos seus mil amores infelizes e foi viver em um mosteiro.
Fez a mala e despediu-se dos 2 filhos, resultados amenos da agonia que era para ela o amor. Decidiu que seria melhor submeter-se á misantropia , retirar-se definitivamente da infinita busca inútil de amar e ser amada sem dor.
Como se tivesse cavado um buraco profundo demais de onde não mais haveria de sair, Laura convenceu-se durante toda vida de coisas tolas e medonhas.
Muitos lhe avisaram que se transformaria irrevogavelmente naquilo em que acreditara mas nada adiantou.
Talvez fosse culpa da sua criação estranha e castradora, talvez fosse sua natureza ultra romântica, mas o fato é que Laura nunca conteve-se ou contentou-se com uma vida sentimental tranqüila.
Amar para ela era um misto de prazer e suplicio,como se agissem sobre ela forças que de tão contraditórias anulavam-se e anulavam a possibilidade normal e decente de ser feliz.
E mesmo no mosteiro ela não parava de refletir, lia e relia tratados sobre o assunto: Ovídio, Ghoethe,Cícero.Nada lhe era mais prazeroso naquelas manhãs solenes de pássaros,sol e silencio do que a entrega de si para consigo mesma.
Sempre, durante toda a vida, lhe assaltaram os pensamentos necessidades eruditas e contemplativas de submeter o espírito à pequenos tormentos para fortalecer-se.
Tinha medo quando mais jovem, que isso fosse uma espécie de desvio psíquico, de desiquilíbrio mental, no entanto agora, ao escutar o sussurro do vento enquanto bebia chá de hortelã que colhera em sua própria horta, Laura dava-se conta de quanto tempo perdeu indo de encontro a sua mais íntima natureza, querendo adaptar-se às imposturas sociais,coisas que não lhe cabiam:casamento, contentamento, a aceitação das limitações do próximo,em contrapartida o revogar de seus mais vis desejos, todos , todos eles sendo diariamente dobrados para fortalecer uma relação inócua mas sem intensidade, estéril pois está fadada ao fim como tudo mais.
Só os filhos lhe fortaleciam a alma,assim mesmo pensava nos pais deles como vítimas, assim como ela própria, do empreendimento ocidental hollywodiano.
Talvez se tivesse nascido em uma cultura longícua aonde as famílias seriam constituídas de maneiras diversas, muitas esposas ou muitos maridos em uma mesma casa.Todos como verdadeiros irmãos abençoados por Deus dividindo o pão,os sentimentos e os deveres escolares dos filhos.
Talvez se tivesse nascido em outra época, quando talvez ainda o cinema não tivesse impreguinado nossas cabeças com possibilidades esdrúxulas de um amor patriarcal, pueril e romântico entre duas pessoas.
Mas não... Laura sabia o quanto sua contemporaneidade corrompera todas as possibilidades de descoberta do amor romântico porque historicamente o romantismo era uma invenção do século XVIII.
Pensando em todas essas coisas Laura passava seus dias,semanas , anos,de silencio e afazeres agradáveis no mosteiro: lavava lençóis na beira do lago, tomava banho com os patos, comia pouco e mais que nunca saboreava cada mínima grama da comida.Lia, ainda, e sempre , pois sabia que esse era o seu convés sagrado, o refugio da alma que sempre lhe parecera atormentada e agora sossegava, aninhada nos finais de domingo amenos .Os domingos nunca haviam sido tão amenos com Laura e agora pela primeira vez, quando abriu mão de qualquer busca, Laura sentiu-se completa.
E foi num destes finais de tarde já velhinha , quando alcançava alturas de satisfação e contentamento exorbitantes,que ela reencontrou aquele homem, agora velho e tão diferente.
Não acreditara no que seus olhos viam, era ele,que a 40 anos atrás a fizera tanto bem e mal, exatamente como haveria de ser um grande amor.
Agora não mais dedicavam –se á noites voluptuosas, só andavam um do lado do outro, pisando na grama macia de pés descalços,pacientes como nunca a espera da grande transformação.Sentavam-se lado a lado nas refeições e apesar de falarem muito pouco entendiam tanto um do outro que só de olharem-se contentavam-se.
Laura conhecera aos 85 anos o amor verdadeiro e ele ironicamente era mais escandaloso para os que estavam de fora do que foram todos os seus amores impetuosos e juvenis durante a vida.Ele era sem esperanças, sem necessidades, sem retaliações ou contratos, ele era PURO,BOM E DESINTERESSADO como deve ser o amor.Não pedia nada tampouco oferecia..
Um ano depois seu grande amor morreu , era alguns anos mais velho e acometera-lhe o mais simples dos infortúnios : a velhice.
 Laura permaneceu ainda mais calada , mas internamente satisfeita e feliz á medida que a felicidade pode ser comprimida no peito, porque morreria enseguida também,tendo,ao menos uma vez, sentido o que é o AMOR , que a vida toda lhe parecera utópico.

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